Rompi o Ligamento Cruzado Anterior (LCA): preciso operar?

por Dr. Antonio Faloni | 17 jun, 2026 | Ortopedista Especialista em Cirurgia de Joelho | 0 comentários

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Essa é a primeira pergunta que a maioria dos meus pacientes faz quando chega ao consultório com o diagnóstico na mão. E é uma pergunta legítima, porque a resposta não é sempre sim.

O LCA não cicatriza sozinho, mas isso não significa que toda ruptura precisa de cirurgia

O ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das estruturas mais importantes para a estabilidade do joelho. Quando ele rompe, seja num lance de futebol, numa queda ou num movimento brusco do dia a dia, a sensação costuma ser de um “estalo” seguido de dor intensa e inchaço rápido. A partir daí, começa uma jornada de dúvidas.

O LCA tem uma capacidade de cicatrização muito limitada. Quando rompido, ele não se regenera como um osso fraturado. Isso é um fato.

Mas isso não quer dizer que todos os pacientes com ruptura de LCA precisam operar. O que define o tratamento não é o ligamento em si, é o que esse paciente faz com o joelho dele.

Quando o tratamento conservador é uma opção

Há perfis de pacientes em que o tratamento sem cirurgia funciona bem:

Pacientes mais sedentários ou com baixa demanda funcionalSe você não pratica esporte, não faz movimentos que exigem mudança de direção rápida e não sente instabilidade no joelho, é possível controlar bem com fisioterapia e fortalecimento muscular.

Rupturas parciaisEm alguns casos de lesão parcial, com bom controle neuromuscular, o joelho consegue compensar a ausência do LCA sem episódios de instabilidade.

Pacientes com restrições clínicas importantesIdade avançada, comorbidades significativas ou outros fatores de saúde podem tornar o risco cirúrgico maior do que o benefício esperado.

O tratamento conservador bem conduzido pode devolver qualidade de vida. Mas exige comprometimento sério com a reabilitação, e aceitação de que certas atividades podem precisar ser evitadas.

Quando a cirurgia é o caminho certo

Para a maior parte dos meus pacientes, especialmente os mais jovens e os que praticam esporte, a reconstrução do LCA é a indicação correta. Veja os principais critérios:

Instabilidade recorrenteSe o joelho “falha” em atividades do dia a dia ou nos esportes, está claro que o tratamento conservador não está sendo suficiente.

Atletas e pessoas fisicamente ativasQuem pratica futebol, vôlei, corrida, CrossFit ou qualquer modalidade que envolva saltos, cortes e mudanças de direção tem indicação cirúrgica na grande maioria dos casos. A cirurgia é o que garante retorno seguro ao esporte.

Lesões associadasRuptura de LCA muitas vezes vem acompanhada de lesão de menisco ou outras estruturas. Nesse cenário, a abordagem cirúrgica é quase sempre necessária.

Joelho jovem, longo prazo em vistaManter um joelho instável por anos aumenta o risco de lesões secundárias, desgaste prematuro da cartilagem e artrose. A cirurgia, feita no momento certo, é também uma decisão preventiva.

O que acontece na cirurgia de reconstrução do LCA

A reconstrução do LCA é feita por artroscopia, uma técnica minimamente invasiva, com pequenas incisões, câmera e instrumentos de precisão. O ligamento rompido é substituído por um enxerto, que pode ser retirado do próprio paciente (tendão do quadríceps, tendão patelar ou isquiotibiais) ou, em casos selecionados, de banco de tendões.

O tempo cirúrgico gira em torno de uma hora. A internação costuma ser de apenas um dia. E a reabilitação, essa sim, é uma jornada, dura em média de seis a nove meses para o retorno ao esporte de alto impacto.

O timing importa

Uma dúvida comum: preciso operar logo? A resposta é: não necessariamente na urgência, mas também não dá para esperar indefinidamente.

O ideal é aguardar a fase aguda passar, reduzir o inchaço, recuperar a amplitude de movimento e fortalecer a musculatura antes da cirurgia. Isso melhora os resultados pós-operatórios. Mas protelar demais, com um joelho instável e sem tratamento adequado, aumenta o risco de novas lesões.

Cada caso tem o seu timing. Por isso a avaliação individualizada é insubstituível.

Minha avaliação antes de qualquer decisão

Quando um paciente chega até mim com suspeita ou confirmação de ruptura de LCA, minha avaliação inclui:

Exame físico detalhado do joelho (testes de Lachman, gaveta anterior, pivot shift)
Análise criteriosa da ressonância magnética
Histórico de atividade física e demandas funcionais do paciente
Expectativas e objetivos de vida do paciente

Só depois disso indico, ou não, a cirurgia. Ruptura de LCA não é sentença cirúrgica automática. Mas para a maioria dos pacientes ativos, a reconstrução é o que garante estabilidade, segurança e retorno pleno às atividades. Se você está com esse diagnóstico na mão e ainda tem dúvidas, o melhor passo é buscar uma avaliação especializada, não para ouvir que vai operar, mas para entender, com clareza, qual é o seu caso.

Dr. Antonio Faloni

Dr. Antonio Carlos Faloni

Ortopedista especialista em joelho · Parauapebas e Marabá

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Referências

As informações deste artigo foram elaboradas com base em literatura científica e diretrizes de entidades de referência em ortopedia. Devem ser revisadas pelo Dr. Faloni antes da publicação.

1.American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). ACL Injury: Does It Require Surgery? OrthoInfo – AAOS. Disponível em: orthoinfo.aaos.org
2.Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). Joelho – conteúdo para pacientes. Disponível em: sbot.org.br
3.Arliani GG et al. Lesão do ligamento cruzado anterior: tratamento e reabilitação. Revista Brasileira de Ortopedia. 2012;47(2):191–196.
4.Rodrigues Lemos J et al. Rompimento do LCA no esporte. Revista Eletrônica Multidisciplinar de Investigação Científica. 2024;3(14).
5.Siemieniuk RAC et al. Arthroscopic surgery for degenerative knee arthritis and meniscal tears. British Medical Journal. 2017.